Seis de setembro de 2005. Quatro anos se passaram, restou a memória, ficou o registro. As fotos do lançamento do livro "Negro em Preto e Branco - História Fotográfica da População Negra de Porto Alegre", obra organizada pela fotógrafa Irene Santos, expõem o que foi aquele momento mágico vivido no auditório da Prefeitura de Porto Alegre. Ao fixar o instante, as imagens marcam a essência e o renascimento do "Negro em Preto e Branco" na modernidade digital e virtual. O livro papel, que evidencia a imensa contribuição dos negros e negras para o desenvolvimento de Porto Alegre, ganhou mundo quando de sua divulgação em diferentes sites. E abre-se agora à globalização por inteiro. Uma excelente ideia que supre a ausência da publicação nas livrarias porto-alegrenses e atende, mesmo que virtualmente, aos tantos pedidos de reedição. Irene Santos e eu somos parceiras na publicação, que também teve a presença da jornalista Sílvia Abreu na construção dos textos. Financiado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte), de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o livro, além de ter esgotada sua edição em pouco tempo, foi o vencedor da categoria especial da 13ª edição do Prêmio Açorianos de Literatura 2006. O olhar já distanciado pelo tempo, ao rever as fotos do histórico final de tarde de véspera do feriado da Independência, marcado pelo prenúncio da primavera, me oferece lembranças. Um sentimento que, acredito, tomou conta das mais de 400 pessoas, principalmente as mais velhas, que subiram as escadarias do antigo prédio da Praça Montevidéu. Com registros fotográficos reveladores da atuação da comunidade negra na cultura, esporte, política e cotidiano da Capital no período que vai de 1850 até o final dos anos de 1970, Negro em Preto e Branco, quando da sua sessão de autógrafos, mexeu com a auto-estima do público presente. Foi uma grande festa. O auditório tornou-se pequeno. E os corredores do Paço Municipal também. Nas mãos, o livro que resgatou de acervos particulares e públicos os retratos dos encontros, das festas familiares, das comemorações, viagens, formaturas, o Carnaval, as crenças, o cotidiano das pessoas anônimas. Imagens fotográficas reveladoras da beleza, força e dignidade do povo negro. O lançamento do "Negro em Preto e Branco" foi regado a vinho Flowers e teve farta distribuição de beijos, Beijos Africanos. Flores que não paravam de chegar, sorrisos amplos e vozes altas e freneticamente negras ressoavam pelo espaço da noite, numa felicidade geral. Fixar esse momento em fotos que se abrem à leitura virtual é ativar as lembranças das muitas pessoas que revelaram estar entrando pela primeira vez pela porta da frente no espaço da Prefeitura Velha. É rever a felicidade estampada nos rostos daqueles que cederam fotos de seus familiares e que se reencontraram nas muitas temáticas abordadas, nos penteados das mulheres, nos belos vestidos de festa, nas meias de seda, nos sapatos da moda e nos ternos masculinos de excelente corte nas imagens da época. O
livro cumpre seu papel de resgate na imagem positiva da população
afrobrasileira, invísivel nos meios de comunicação
social do país. E agora, virtualmente, amplia o nosso compromisso
em escrever e reescrever a nossa história, que muito em breve se
concretizará em novo projeto, mais uma vez premiado pelo Fumproarte.
*Jornalista |